CRÔNICAS DE UM FIM DE SEMANA DE DEZEMBRO I (Lapa)

João Victor de Assis repara o ambiente e sorri com gosto. Na pista, mulheres de cores e idades variadas sambam. Bumbo, pandeiro, repique, cavaquinho e violões quase impedem que sua resposta seja ouvida. Desnecessário, talvez, porque o tamanho de seu sorriso já entregou a razão dele estar ali.
- Olha só para elas, que maravilhas. É por isso que eu venho aqui, é por elas. Só tem mulher que fala no pé.
João Victor tem trinta e quatro anos e é militar. Mas, muito antes de entrar para a caserna, na infância, já dava os primeiros passos no samba, “pegava um lenço e brincava de mestre-sala”. Tem origem para tanto: nasceu em Madureira, terra do Império Serrano e da “Portela do coração”. Hoje, vive na Lapa, segundo ele “um lugar onde a noite tem uma magia especial”.
- Aqui tem tudo para todos. Eu sou do samba, mas você é que é do rock tem seu espaço. Hip-hop, reggae, forró..... A Lapa é democrática, todo mundo é bem-vindo.
João Victor aproveita todas as oportunidades para trocar o coturno pelo sapato bicolor de bico fino, e o ritmo da marcha pela cadência do samba. Se a mira do militar permanece a mesma, os alvos mudam: a certa distância, em um canto do salão, uma loura de belas pernas dança sozinha. João Victor a observa atentamente, depois pede licença justificando que “vai à luta”. Minutos depois a moça já não samba só: João Victor está lá, cortejando-a com determinação de um soldado e a ginga de um mestre-sala.
Escrito por Felipe Sodré às 03h07
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