REVOLVER QUARENTÃO

Estou atrasado. Em agosto último, a praça fonográfica ganhou um quarentão de responsa e deixei passar batido. Infelizmente me esqueci dos festejos, mesmo ouvindo o quarentão dia sim, outro também. Muito chato isso ocorrer no quadragésimo aniversário de um amigo querido. É que, atualíssimo, nem se nota nele o passar das décadas.
Bem, por estarmos ainda em 2006, creio estar dentro da “validade” a justa homenagem. O discão de meia-idade em questão é Revolver, o sétimo filho dos Beatles, nascido na Inglaterra em 5 de agosto de 1966, mas concebido muito meses antes, como é de praxe. Na verdade, muitas das feições sonoras que Revolver apresenta podem ser notadas em Rubber Soul, o álbum anterior. Os Beatles abriam mão do ié-ié-ié juvenil, uma fórmula consagrada, e caminhavam em passos decididos nas veredas da experimentação e do aprimoramento musical. E isso apenas três anos depois de lançar seu primeiro álbum, Please please me.
Em Revolver, os Beatles estão em grande forma e unidos como nunca. Não obstante essa união, as contribuições individuais ficam evidentes ao longo da audição, como que a mostrar o amadurecimento artístico de cada um dos quatro rapazes de Liverpool. Para começar, pela primeira vez o caçula George Harrison abre um disco – e o faz em grande estilo, reclamando dos altos impostos britânicos em Taxman. Harrison, também pela primeira vez, tem mais duas (e belas) composições incluídas: Love you too, em que aprofunda suas experiências pela música indiana, e I want to tell you, um pop melódico de alto nível.
John Lennon & Paul Mc Cartney, afiadíssimos, apresentam cada qual seu repertório (é sabido que, apesar da marca Lennon & Mc Cartney, raramente compunham juntos). É da safra de Lennon a parcela mais rock n` roll de Revolver. Canções como Tomorrow never knows, She said she said e Dr. Robert, embaladas por riffs de distorções variadas, pela primeira vez abordam as experiências lisérgicas de Lennon, temática que o beatle retomaria muitas vezes depois em formatos mais experimentais, e que influenciaria a obra de artistas de muitas gerações (ou alguém acha que a chapação do pop britânico atual é coisa nova?)
Paul Mc Cartney, por sua vez, demonstra crescimento como arranjador e maestro. É ele o beatle que chega primeiro e o último a sair do estúdio, aquele que fuça todas as possibilidades da mesa de som, que traz mais sugestões e o que toca maior número de instrumentos. O repertório de Mc Cartney em Revolver está repleto de melodias delicadas ressaltadas pelo uso de violinos, oboés e violoncelos, instrumentos até então impensáveis num disco de pop-rock. Here, there and everywhere, Eleanor Rigby e For no one são canções nascidas na música popular, mas cujas melodias estão bem próximas da música clássica.
Mesmo Ringo Starr, conhecido como o baterista mais sortudo da História, deixa brilhantemente sua marca. Sua interpretação relaxada e despretensiosa fez da infantil – e também lisérgica – Yellow Submarine (by Mc Cartney) um marco referencial na obra dos Beatles e também uma das canções que mais fortemente os reaproximava da sua Liverpool natal, cidade de porto e povo marujo. Com a boca cheia e orgulhosa de seu northern accent, Ringo manda ver: “In the town where I was born/ Lived a man who sailed the sea.”
Depois de Revolver, os Beatles nunca mais seriam os mesmos. Na seqüência, em 1967, a banda deixou o mundo boquiaberto de vez. Sgt. Pepper`s lonely hearts club band tornou-se paradigma da música pop, e o registro mais agudo da inventividade e do talento dos Beatles, projeto pensado desde as composições, passando pela capa e encartes, até o trabalho de engenharia sonora. Mas, se as raízes dessa guinada artística surgem em Rubber Soul e o auge se dá em Sgt. Pepper`s, é em Revolver que os Beatles fortalecem a unidade sem perder de vista os talentos e caminhos individuais. Elementos que, em se tratando de John, Paul, George e Ringo, tornam imperdível o álbum quarentão.
Escrito por Felipe Sodré às 23h52
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